“VOVÔ AVISOU”

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A frase acima pode ser utilizada daqui duas gerações por netos que ouvirão o avô dizer incansavelmente – de maneira que pode parecer até senil – que o mundo vai acabar. Nós, no agora e lá atrás, já estamos cansados de ouvir algo parecido.

Há décadas a Amazônia queima vários campos de futebol por dia. O efeito estufa, que aos incautos pode parecer uma alucinação dos cientistas, já teve seus males revelados há pelo menos dez anos. As placas polares estão se desprendendo e derretendo. O mar vai invadir cidades.

O sertão já virou mar em música dos anos 70, de Sá e Guarabira. O contexto era outro, mas pode ser aplicado no futuro próximo. Tufões em regiões onde sequer havia brisa, terremotos catastróficos e os tsunamis. Tudo com conseqüências arrasadoras.

Fome, doenças, populações dizimadas. Tudo isso é roteiro batido de filmes holywoodianos. E de certa forma, o cinema antecipa o futuro, é visionário.

Mas o ser humano não aprende. O homo sapiens foi feito para sobreviver, explorar e se adaptar ao meio. Não faz parte de nossa cultura garantir a preservação para os próximos que virão. Mas nem todos agem dessa forma.

O problema é que modificar uma cultura leva tempo. E o tempo, nesse caso, pode fazer com que o aviso do vovô se concretize. Ninguém está livre do fim do mundo. Fim do mundo aqui, não é um cataclisma, mas a destruição total dos recursos naturais, que levaria à humanidade a uma nova fase do planeta, assim como quando um meteoro exterminou os dinossauros.

A onda politicamente-correta-ambiental invade o mundo, vem veloz com milhares de informações. Reciclagem, separação do lixo doméstico, economia de água, combustíveis menos poluentes, bicicleta no lugar do automóvel, enfim. Palavras cotidianas com pouco aplicação.

Não precisamos ir longe para fazer descobertas nefastas. O Rio do Peixe. Nele já foram realizadas competições de pesca do dourado, um dos mais nobres peixes dos rios. Agora, pequenos mandis e lambaris, competem espaço com o lixo e o esgoto despejado in natura.

Esgoto aliás, de onde vem a água utilizada pela maioria dos habitantes de Marília. Descoberta da ONG SOS Rio do Peixe, mostra que a parte mais poluída do rio, é onde a captação de água para abastecimento da cidade é feita. Após diversas etapas de tratamento e adição de produtos químicos, ela chega às nossas torneiras. Isso quando chega.

Obra de tratamento de esgoto que deve ser finalizada em três anos pode solucionar a questão da poluição do Rio do Peixe. Mas ainda é preciso reflorestar as matas ciliares às margens do rio, que em muitos pontos está assoreado. O Rio do Peixe corre o risco de secar caso a mentalidade e cultura dos que se utilizam dele não sejam modificadas.

O Rio do Peixe é apenas uma pequena parcela da devastação e degradação ambiental do planeta, mas pode ser o símbolo, o exemplo, de que ainda há tempo de viver em um planeta melhor, antes que o vovô comece com suas previsões malucas.

APRIMEIRA CERVEJA DO DIA

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Chicão resolveu radicalizar. Afinal, todos bebem um cervejinha quando saem do trabalho. Por que não eu, se questionava. Chicão pensava em tomar uma há muito tempo, mas qualquer coisa moralista o impedia. A consciência pesava. O que vão pensar. Serei taxado de bêbado, desocupado. Por volta das sete horas daquela quarta-feira cinza – que não era de cinzas – Chicão acordou decidido. No caminho do trabalho já visualizava a cena, ensaiava as palavras. Teria que ser direto, sem embargar a voz. É hoje, quando sair de traz daquele balcão, paro na Padaria do Bigode. Vou ser ignorante.

Chicão era recepcionista de um Hotel meia boca no centro da cidade. Em dias de maior movimento, não havia puta pobre. Os hóspedes, na maioria vendedores e representantes comerciais, aproveitavam as poucas horas de descanso para arrumar uma companhia. Chicão conhecia todas as putas da cidade. Sabia indicar as mais jeitosinhas ou as barrigadas. Tudo dependia da cara do freguês, além das comissões que ganharia, tanto das putas, quanto dos hóspedes. Chicão fazia questão de deixar bem claro que não era cafetão. Nunca cobrou ninguém, recebia por fora, como uma espécie de gorjeta. Em média, lucrava 200 contos por mês. Não era muito, mas dava para tomar uma cervejinha todo dia no fim do expediente. Coisa que Chicão em 27 anos de serviço, nunca havia feito.

Chicão, tem coisa boa aí. Tem a Rafa, morena, alta, magra, discreta. Não tem dois laterais na boca, mas é a melhor da praça. Manda. Chicão, na surdina, ligava para as meninas que logo chegavam. Quarto 312. Obrigada Chico. As garotas não podiam permanecer no hotel. Os programas eram de uma hora, mas a maioria descia em 30 minutos. Ejaculações precoces, impotências. Rafa saiu do elevador com os cabelos molhados, agradeceu Chicão, se despediu com um beijo e deixou 10 contos no balcão. Então, Rafa, o que vai fazer mais tarde. Olha Chico, hoje vou esticar, tem despedida de solteiro e já estou super cansada. Chicão tinha um tesão louco por Rafa, mas jurava que nunca pagaria por uma mulher. Para Chicão, mulher era tudo puta e com uma boa cantada – sim, Chicão era bom de cantadas – qualquer uma caía na rede. Um dia como essa piranha, pensava.

Faltavam duas horas para terminar o expediente. Chicão estava ansioso, mas não desistiria. Era verão, todos tomavam uma breja no fim do dia, o famoso happy hour, que para Chicão, não tinha nada de feliz. No fundo, sentia inveja das pessoas sorridentes, gargalhando por qualquer besteira, tomando um chopp gelado com porçãozinha de tremoço. Relógio bateu seis horas. Coração de Chicão disparou. Vaidoso, tirou o uniforme de recepcionista e colocou uns panos da moda. Perfuminho que ganhou de amigo secreto, mochila nas costas e lá se foi rumo à Padaria do Bigode.

A Padaria do Bigode era a melhor da cidade, às cinco e meia já estava lotada. Todos os dias. Chicão chegou por volta das sete, ainda no auge do movimento. Encontrou um lugar, o único vago no balcão. Apesar de estar cheio de gente, Chicão ainda se sentia desconfortável em pedir uma cerveja. Mas não desistiria, estava na chuva e se molharia. Baiano, o chapeiro, trabalhava alucinado preparando os pedidos. Nas raras paradas, também atendia os clientes.

Então Rubens, o que vai ser – perguntou ao homem com cara de ontem, ao lado de Chicão.

Quero uma meia de leite e um pão na graxa.

E você Chicão, milagre aparecer aqui hora dessas, que vai querer.

Com olhar fixo em Baiano, Chicão estufou o peito e mandou:

Traz uma gelada e uma porção de torresmo.

Os fregueses que estavam ao lado de Chicão, deram uma breve olhada para ele, talvez pensando que Chicão era um cara de sorte, talvez um desocupado, um bêbado até. Mas Chicão não se importava, sorveu o primeiro gole com prazer e fez questão de soltar aquela exclamação de frescor típica de propaganda de creme dental. Quando abriu os olhos e baixou o copo sobre o balcão ao seu lado estava Rafa, outra vez de cabelos molhados. Ela sorriu. É hoje, pensou Chicão.

BAIXA CHIADO

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Acorda e limpa a baba que essa merda vai cair.
Vai nada, não enche, me deixa dormir.

Turbulência no meio do atlântico norte, noite.

Vai cair sim.

“Fasten Seat Belt” e o aviso para não fumar. Sete horas, de doze, sem um cigarro. Bom, se uma merda pesada desse tamanho consegue voar, provável que não caia mesmo. Acordamos, sol na cara. Serviço de bordo. Café digno de um hospital. Vontade de cagar. Já era possível ver os telhados de Lixboa. Estávamos prestes a aterrisar. Desperta, estava com aparência de atriz ao acordar. Linda, intocável, sem bafo, sem remelas, cabelos perfeitos. Como é possível, pensei. Chegamos. Acendi um cigarro. Últimos da fila da alfândega. Metade dos passageiros foi deportada no mesmo instante.

Passaporte.
Taí.
(Resmungou). Que fazem em Lixboa.
Turismo.
Quantos dias.
15.
(Resmungou).
Se puder indicar uma cerveja, estou com sede.
Oh pá, podem passar, Super Bock.
Super o que.
A cerveja, oh pá, Super Bock.
Certo.

O cara deve estar de gozação, Super Bock parece marca de detergente.
Cala a boca, vamos pegar as malas.

Bush era acusado de fraudar as eleições. Mesa de fórmica com cadeiras de plástico. Entre amenidades e perguntas inevitáveis – “de onde veio, o que faz da vida” – olhares desconfiados. Curiosidade maior era em relação ao casal do 327, sempre entrando com sacolas, se trancando no quarto.

Temos que sair daqui.
É, então vamos.

Encontramos um lugar melhor, uma pensão, quarto amplo com banheiro. Indicação de Zico, um caboverdiano que conheceu em uma galeria de arte. Rapaz falante. Se dizia artista.

Gostava de arte. Na verdade, apreciava qualquer coisa imperceptível na natureza humana. Adorava rachar um founde com ilustres desconhecidos, ou visitar banheiros masculinos em bares de cultura cubana.

(Onde está Nuno, perguntou a portuguesa.

Nuno está muito bem, pensei. Ambiente escuro, companhia agradável, mas nada que superasse meia hora. Ambos serviam apenas para meia hora. A música caribenha contagia até o ponto do ouvinte se sentir um idiota. Sorrisos, rebolados, gritos. Será assim no Malecón? Silvia, nossa anfitriã, tinha um bom papo, um bom corpo e despertava ciúmes. Mas tinha canelas grossas e ficava apenas no bom papo. Todos na mesa pareciam moderninhos de plantão. Nada de amenidades, futebol ou qualquer outra besteira de bar. Conversa sempre tinha que fluir em torno da política, cinema iraniano, a prisão de Mumia Jabal Ali -seja lá quem fosse. O jeito era beber, mas bebiam pouco e no fim sempre pediam café com copos d’água.

Onde está Nuno, perguntou aflita a portuga 15 minutos depois.
Eu sei, no banheiro, acompanhado.

A portuga foi até lá histérica. Espancava a porta. Não posso perder essa cena.

Tem certeza que estão aí.
Ô.

Nuno saiu sorrindo. Foi em direção à rua. A portuga histriônica atrás.

Surgiu logo depois, com cara de banana. Voltei pra mesa, tomei outro imperial. Fui embora. Me acompanhou se explicando. Caminhei pra casa fumando um cigarro. Pessoa permanecia sentado, imóvel, em frente ao café. Cada um sabe o que faz.)

(Então Catarina, como estão as vendas.
Olha, não vão muito bem (para vendedor as vendas nunca estão bem).
Certo, e o Natal.
Família, e o de vocês.
Não sabemos. Onde está.
Olha, já era pra ter retornado, acabou o horário de jantar.
Certo.

Era um shopping de bairro, sem luxo, poucas lojas, todas com decorações natalinas enjoativas. No restaurante, acompanhada de um homem. A famosa cara de banana e espanto.

Oi, jantando.

Na mesa um belo vinho. Alandra, talvez.

Esse é Carlos, cliente da loja.
Os clientes daqui são mesmo gentis.

Me sentei, enchi uma taça de vinho. Virei.

Foi um prazer, bom jantar a vocês.

O metrô estava vazio e gelado)

(Vamos à mostra de curtas de animação.

Deve ser fabuloso, pensei. E fui a contragosto.

Só vai ter fera por lá, vai ser muito bacana.
Certo.

Parecia muito excitada com a tal mostra. Dezenas de curtas de desenhos animados.

O Nuno vai estar lá.
Nuno, o cara do banheiro cubano.
Não, esse é outro, todos por aqui se chamam Nuno, esqueceu. O cara é um dos melhores do país, é genial.

Ergui a sobrancelha. Lá estavam todos eles. Cabelos coloridos, piercings espalhados pelo corpo, coturnos militares, saias xadrez. Novamente a fauna, pensei. Nuno, ao avistá-la, saiu da rodinha de amigos e como uma gazela correu em nossa direção. Um cumprimento, um desprezo. A mostra foi realmente muito boa, só não poderia esquecer de levar meu travesseiro na próxima.

Esse Nuno deve ser bem bacana, não.
Não tem nada a ver.
Certo.)

Com a mudança, o casal ficou mais recluso. Entretida em sua arte, testava novos pigmentos à base de borra de café. Não deu certo. Arrumou trabalho de balconista de uma loja de roupas. Foi assistente de cabeleireiro e também garçonete de restaurante marroquino. A partir do momento em que se compra panelas em outro país, deixa-se de ser turista.

DISRITMIA

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Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços; Imposto sobre a Exportação; Imposto sobre a Importação; Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores; Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana; Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural; Imposto de Renda; Imposto sobre Operações de Crédito; Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza; Imposto sobre Transmissão Bens Intervivos; Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação; INSS Autônomos e Empresários; INSS Empregados; INSS Patronal; Imposto sobre Produtos Industrializados; Programa de Integração Social (PIS) e Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP).

Contribuição Adicional de Frete para Renovação da Marinha Mercante; Contribuição á Direção de Portos e Costas; Contribuição ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico; Contribuição ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação; Contribuição ao Funrural; Contribuição ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária; Contribuição ao Seguro Acidente de Trabalho; Contribuição ao Serviço Brasileiro de Apoio a Pequena Empresa; Contribuição ao Serviço Nacional de Aprendizado Comercial; Contribuição ao Serviço Nacional de Aprendizado dos Transportes; Contribuição ao Serviço Nacional de Aprendizado Industrial; Contribuição ao Serviço Nacional de Aprendizado Rural; Contribuição ao Serviço Social da Indústria; Contribuição ao Serviço Social do Comércio; Contribuição ao Serviço Social do Cooperativismo; Contribuição ao Serviço Social dos Transportes; Contribuição Confederativa Laboral; Contribuição Confederativa Patronal; Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico; Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública; Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional; Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira; Contribuição Sindical Laboral; Contribuição Sindical Patronal; Contribuição Social Adicional para Reposição das Perdas Inflacionárias do FGTS; Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social; Contribuição Social sobre o Lucro Líquido; Contribuições aos Órgãos de Fiscalização Profissional (OAB, CRC, CREA, CRECI, CORE, etc.) e Contribuições de Melhoria: asfalto, calçamento, esgoto, rede de água, rede de esgoto, etc.

Fundo Aeroviário; Fundo de Fiscalização das Telecomunicações; Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações e Fundo Especial de Desenvolvimento e Aperfeiçoamento das Atividades de Fiscalização.

Taxa de Autorização do Trabalho Estrangeiro; Taxa de Avaliação in loco das Instituições de Educação e Cursos de Graduação; Taxa de Classificação, Inspeção e Fiscalização de Produtos Animais e Vegetais ou de Consumo nas Atividades Agropecuárias; Taxa de Coleta de Lixo; Taxa de Combate a Incêndios; Taxa de Conservação e Limpeza Pública; Taxa de Controle e Fiscalização Ambiental; Taxa de Controle e Fiscalização de Produtos Químicos; Taxa de Emissão de Documentos municipais, estaduais e federais; Taxa de Fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários; Taxa de Fiscalização de Vigilância Sanitária; Taxa de Fiscalização dos Produtos Controlados pelo Exército Brasileiro; Taxa de Fiscalização e Controle da Previdência Complementar; Taxa de Licenciamento Anual de Veículo; Taxa de Licenciamento para Funcionamento e Alvará Municipal; Taxa de Pesquisa Mineral; Taxa de Serviços Administrativos; Taxa de Serviços Metrológicos; Taxas ao Conselho Nacional de Petróleo; Taxa de Outorga e Fiscalização da Energia Elétrica; Taxa de Outorga de Rádios Comunitárias; Taxa de Outorga de Serviços de Transportes Terrestres e Aquaviários; Taxas de Saúde Suplementar; Taxa de Utilização do MERCANTE; Taxas do Registro do Comércio e Taxa Processual Conselho Administrativo de Defesa Econômica. E o bolso ainda é pouco.

SR. GENARO

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“Onde há merda, há vida.” É o ditado predileto de Genaro. Merda, ele entende disso. Genaro vende húmus, que nada mais é do que a merda da minhoca. Recebe diariamente em sua fazenda caminhões lotados de merda de vaca, que mais tarde se transformam em merda de qualidade. É só despejar no canteiro e deixar a minhoca fazer o resto.

Genaro está cansado. Para ele, a vida também é uma merda, com eventuais pitadas de açúcar. Vive rodeado de merda por todos os lados. Ao abrir a janela, de manhã, tem a bela vista de uma montanha de merda. Logo, o cheiro invade sua casa, toma conta das narinas e enfim se acostumava. Na verdade, para Genaro merda tem cheiro de dinheiro. Ganhar dinheiro, Genaro entende disso. Genaro é um homem só. As pessoas não retornam a sua casa. Ninguém gosta do cheiro de merda.

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PÁRA RAIO

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O carro parou em frente a um sobrado condenado. Ouvia-se ruídos guturais e um som que lembrava Frank Zappa. Vamos entrar, uns amigos da faculdade estão dando uma festa. A porta estava aberta e sob a luz amarela de 25 watts, uma tribo de cabeludos sujos, com copos plásticos na mão, discutiam algo parecido como a importância da universidade pública. Talvez o entra e sai fosse constante porque ninguém reparava na presença de estranhos. Na cozinha garrafas vazias de Velho Barreiro competiam espaço com garrafões de Sangue de Boi. Vômito na pia. Parecia uma mistura de macarrão com omelete. Duas estudantes se beijavam. A que estava sentada na mesa de ferro dava uma chave de pernas na outra. Uma cena linda, sutil e instigante. Na geladeira, nenhuma cerveja. Apenas meio limão seco e algo que provavelmente foi uma cebola num passado distante. Fui no vinho, metade do copo plástico já usado, com marcas de batom. E fui para sala. Seus amigos são muito bacanas. É, eu adoro eles, super gente boa. Sei. O som mudou para Caetano Veloso (putamerda) e tudo ficou mais calmo. O cheiro de erva tomou conta da casa. E após um silêncio repentino, como se todos tomassem fôlego ao mesmo tempo para emendar um pensamento, surgiu a doida. Eu sou um pára raio. Sim, eu sou um pára raio, gritava alucinada chamando a atenção. E conseguiu. Em escala progressiva, mais pára raios surgiam no ambiente. A festa virou uma comunidade de pára raios. Eu também sou um pára raio. É, eu também. Viva os pára raios. Viva o Deus dos pára raios. Começaram a se exaltar e o tempo começou a fechar. Alguns até imitavam o estrondo de um raio caindo sobre si. As mãos juntas, os braços levantados, com o rosto para cima, esperando com sinceridade ser abatido pela descarga elétrica. Vamos embora porque vai chover.

MUDAM OS NOMES, FICAM OS FATOS

E Santa Cruz amanheceu catatônica. Da noite para o dia, o famoso rio Pardo, onde centenas de santacruzenses se divertiam em bóias todos os anos, teve suas águas turvas transformadas em sangue. A população se aglomerava nas pontes e nas margens do leito, feito Tomés, ainda não crendo no que seus olhos viam.

“É um milagre”, tentava explicar o padre Marcelo da cidade. “É o fim do mundo”, gritavam as carolas em posição de oração. O professor e o músico, ecologistas, confabulavam a hipótese de tanto sangue ser devido a matança indiscriminada de peixes através de arrastão. E o delegado de polícia já iniciava as investigações.

“Num primeiro momento é difícil explicar tal acontecimento, mas ainda não afastamos a hipótese de homicídio seguido de estupro. A nível de investigação cremos que o assassino esteja entre os curiosos”, dizia para a rádio educativa da cidade.

A maior autoridade do vilarejo, um juiz de 23 anos, recém empossado, não prestava declarações porque ainda não sabia o que era sangue.

“Seja o que for, de acordo com minha experiência de vida, o responsável merece a guilhotina ou cinco anos de prisão.”

O jornal Debate acreditava que fatos políticos estariam por trás do mistério soltando a manchete, “Prefeito é flagrado urinando no rio Pardo”.


Estudiosos durante análise da hidro-transubstanciação

Logo o fato tomou proporções nacionais e o presidente da república abandonou seus compromissos em Brasília para averiguar tal fenômeno. O sociólogo-ateu foi recebido com desconfiança pela população, mas o clero local abafou tal repúdia, patrocinando com dinheiro do dízimo, um jantar de boas vindas regado à feijoada fria e cerveja quente, no Icaiçara Clube.

De tão grato e ocupado discutindo os interesses da burguesia falida, o presidente foi embora sem mencionar seu parecer sobre o rio ensangüentado. Insatisfeito com o descaso de FHC, o folclórico Primo aproveitou a brecha para navegar pelo rio e dizer que, se for eleito vereador, transformará Santa Cruz na capital mundial do banco de sangue.

Embalados no clima eufórico que tomava conta da cidade, em sessão extraordinária, os notáveis vereadores discutiam a proposta para mudar o nome do rio. Entre as sugestões estavam, “Santa Cruz do Rio Sangüíneo”, “Santo Rio Sangue de Jesus” e “Corrente Sangüínea de Santa Cruz”.

A principal TV do país resolveu a enquete realizando o Você Decide nas ruínas da Erisoja. Para roubar a audiência e a preferência dos jovens, outra TV trouxe para um famoso bar da cidade sua principal atração, “Tiazinha e Feiticeira na Banheira do Gugu”.

Os meses foram passando, estudiosos, cientistas, cartomantes e toda espécie de charlatões desembarcavam diariamente na cidade para analisar o mistério. A população não ligava mais para o fato e alguns moleques até arriscavam a nadar pelas águas vermelhas.

Para atender a demanda de turistas o clube Náutico reabriu, promovendo caravanas em embarcações que subiam e desciam o rio em busca do Monstro do Rio Pardo. Um pescador que afirmava ter visto tal monstro era o guia que levava os curiosos para o local onde supostamente a aberração aparecia, próximo ao paradão, precisamente ao lado da pedra da punheta.


A tal “pedra da punheta”

Os puteiros também se alojaram nas margens do rio. Em noites de lua cheia, o reflexo da luz da lua com o vermelho do rio proporcionava um ambiente fogoso para as farras dos maridos adúlteros e bissexuais. Os maconheiros se aglomeravam em cima das pontes em busca de uma visão privilegiada para suas “viagens”. A polícia, aproveitava o pequeno movimento nos arredores do centro da cidade, para realizar uma batida em busca de motoristas sem cinto de segurança.

Enquanto isso, uma gangue de mauricinhos da cidade promovia uma algazarra regada a cerveja, churrasco e cocaína, na caçamba de uma caminhonete zero quilômetro. Anos se passaram sem que o mistério fosse resolvido e a população, já acostumada com o fato, retornava ao ritmo normal de vida.


Seria este o Monstro do Rio Pardo?

Até que surgiu um forasteiro e se instalou em Santa Cruz. Perguntado se não achava estranho o rio ser formado por sangue, surpreendeu a todos tornando-se o novo líder espiritual da cidade.

“Todos os rios são formados pelo sangue de Deus. Mas somente os seres iluminados podem ver a verdade. E a verdade eu vos digo. Na realidade o rio é puro vinho, e dos bons”, proferiu.

E a partir de então, vários rituais em celebração a Dionísio foram organizados, na base de música sertaneja, orgias e, claro, muito vinho. E a cidade voltou a ser o que era.

O NATAL DE SANDRA

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-Caio, já temos lugar para o Natal, vamos passar junto com Catarina, na casa dela.
-Catarina da loja?
-É, também trabalha comigo, mas é outra Catarina. Toda portuguesa se chama Catarina, esqueceu.
-Certo, pelo menos comeremos bem.
-Vai ter bacalhau
-Bacalhau, no Natal?

Catarina morava no subúrbio de Lisboa. Após meia hora de ônibus paramos no ponto final, onde já nos esperava junto com a filha Sandra, uma garotinha de 3 anos. Frio, chuva e mofo, entramos num carro que mais parecia um Chevette 73. Ainda paramos na casa da sogra de Catarina para pegar um bolo. Bolo, no Natal, pensei. Nova parada, dessa vez em um mercadinho onde o cunhado de Catarina, um chinês sem nome, jogava fliperama. Finalmente o lar. Um apartamento no porão do prédio. A sala também era o quarto de Sandra. Banheiro, cozinha e o quarto de Catarina.

-Sejam bem vindos.
-E seu marido, não vem, perguntei.
-É o plantão dele hoje, trabalha como segurança em um hospital.
-Certo.

Catarina e Lígia foram para a cozinha, enquanto eu fazia companhia para o chinês sem nome. O homem era de poucas palavras. Colocou um CD no aparelho. Um country portugues. Meu Deus, pensei, tudo é possível.

-Do caralho esse som, não, balbuciou o china.
-Ô.
-Uisque?
-Opa.

Na TV também ligada em alto volume, um programa de auditório sorteava qualquer coisa. Sandra, a menina de 3 anos, brincava com sua boneca enquanto coçava ferozmente a cabeça. Piolho, imaginei. O chinês sem nome acendeu um charro (maconha misturada a tabaco).

-Vai?
-Acho melhor. Mas me diga china, o que faz da vida?
-Sou caminhoneiro, recolho caçambas de entulho.
-Parece um bom negócio.
-É sim, dá pra tirar uns trocos.
-Certo.

Com o china não havia mesmo muito diálogo. Fui pra cozinha, dar uma olhada no bacalhau. A fome estava brava e imaginava um belo prato. Português deve saber fazer bacalhau. Lígia e Catarina batiam um papo tão animador quanto o meu e o do china. Fui pra sala. A menina Sandra e eu parecíamos deslocados em meio à “família”. Decidi brincar com a pirralha, mas logo cansei e não queria mais graça. Sandra insistia e me tirou do sério.

-Cala a boca menina, disse baixinho enquanto mostrava a palma da mão.

Sandra saiu em disparada à cozinha.

-Mamãe, mamãe, o tio bateu em mim.

Fudeu, pensei.

-Esse china é mesmo um filhadaputa. China, porque bateu na menina, gritou Catarina da cozinha.

China estava entretido em seu country portugues. Catarina nos chamou pra comer.

-Que porra é essa, cochichei com Lígia
-Sei lá, mas não vou comer.

No prato, folhas de couve inteiras, batatas e o bacalhu cozido. Tudo sem sal ou tempero, nem uma mísera cebola. Catarina jogou tudo na panela e cozinhou. Para acompanhar, um vinho. Casal da Eira, vendido em embalagens TetraPak, igual às caixas de leite.

-Melhor comer, se não vai passar mal. Já tomou uisque demais.
-Caio, não enche.
-Ok, eu vou comer.
-Hummm, Catarina, está divino. Onde aprendeu a cozinhar?
-É segredo de família.
-Poxa vida, nunca comi algo tão saboroso, divino. Posso repetir?
-Claro, Caio, fique à vontade.

Lígia sorria e começava a falar com voz sebosa. Eu já esperava pelo bolo que nunca foi oferecido.

Após o lauto jantar, fomos todos para a sala. Sandra a coçar a cabeça, furiosa; Catarina a fumar com desdém; Lígia com olhar perdido, jogada no sofá; eu observando toda a cena. China havia desaparecido. Toca a campainha.

-Sandra, quem será, disse Catarina. Será o Pai Natal (Papai Noel)?
-Pai Natal, mamãe?
-Vamos ver?

Catarina abriu a porta e surgiu o Pai Natal cambaleante, todo a caráter, barba, bigode, botas, roupas vermelhas e o saco de brinquedos.

-Mamãe, esse não é o Pai Natal.
-Como não, Sandra. É o Pai Natal sim, ele veio lá do polo norte pra te dar presentes.
-Não mamãe, esse é o tio china.

Inevitavelmente despenquei a rir, fazendo com que um pouco de uisque saísse pelo meu nariz. Catarina olhou feio pra mim, Sandra despencou a chorar e o china se jogou no sofá. Enquanto Pai Natal dormia e roncava, catarina distribuía os presentes para Sandra. Olhei em volta e não vi Lígia. Fudeu. Quando entrei no quarto de Catarina, Lígia soltava a primeira golfada de vômito no chão. Tive que a arrastar até o banheiro.

-Lígia, vomite no vaso, enquanto eu limpo o quarto, antes que Catarina perceba.

Correu tudo como planejado. Retornei ao banheiro, mas Lígia havia errado o alvo.

-Caralho, Lígia, você vomitou no bidê.

O vômito inundou o bidê. Com uma esponja que encontrei na saboneteira do chuveiro, absorvia o vômito e despejava no vaso sanitário. No final da operação, o bidê ficou um brinco. A esponja, devolvi na saboneteira.

-O que aconteceu?
-Lígia estava passando mal. Se importa de nos levar embora?
-O china leva, disse Catarina.

Nunca havia pegado carona com um Pai Natal bêbado. No caminho, china acendeu outro charro.

-Vai?
-Acho melhor.

2 Responses to “Writes”

  1. O fato foi bem estranho, mas foi legal.

  2. always a big fan of linking to bloggers that I love but don’t get a lot of link love from…

    just beneath, are numerous totally not related sites to ours, however, they are surely worth going over…

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